sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Vale a pena adaptar um motor Diesel mais moderno num veículo antigo?

Veículos antigos exercem alguma atração baseada nas mais variadas razões, que vão desde a imagem de maior resiliência do conjunto mecânico ou a percepção de uma maior facilidade para que se faça a manutenção por conta própria até um interesse em preservá-los como uma peça de coleção pelo valor histórico, passando por alguma afeição desenvolvida especificamente por determinadas categorias em função de algum motivo mais subjetivo. Um exemplo a se considerar é o de vans full-size americanas como a GMC Vandura produzida entre '71 e '95 e contou com opções de motores de 6 cilindros tanto em linha quanto em V mas sempre a gasolina de acordo com o ano de fabricação ou com alguns V8 entre os quais podia ser encontrada ao menos uma opção Diesel. Remontando a uma época em que até na ignição por faísca a presença do gerenciamento eletrônico estava distante de alcançar o atual patamar, não é de se estranhar que a imagem ainda meramente utilitária atribuída ao Diesel possa levar a entender que atualmente adaptar um motor mais moderno seja sempre a melhor opção, ainda que cada caso requeira uma análise mais específica.
Desconsiderando uma adaptabilidade dos motores originais de ignição por faísca ao etanol ou ao gás natural, bem como a eventual substituição dos mesmos por algum mais moderno que eventualmente seja mais indicado para o uso de um combustível alternativo em detrimento do outro, quando se trata do Diesel sempre há de se considerar outras variáveis que possam soar um pouco mais "exóticas". No caso específico da GMC Vandura, o uso de um motor Detroit Diesel de 6.2L ou 6.5L de acordo com o ano de fabricação mas sempre com injeção indireta soa convidativo até mesmo que se experimente o uso direto de óleos vegetais frescos ou reaproveitados de aplicações culinárias como combustível, dada a maior facilidade que se tem para efetuar a combustão completa da glicerina com menor risco de formação de sedimentos dentro do motor. A predominância da injeção direta mas gerações mais recentes de motores Diesel pode desencorajar tentativas nesse sentido, com o biodiesel constituindo uma alternativa mais segura para prevenir danos ao conjunto mecânico. O dimensionamento tanto de motores em diferentes faixas de cilindrada mais facilmente disponíveis atualmente, bem como dos sistemas de controle de emissões que os equipem, também deve ser levado em consideração visando uma melhor integração ao veículo. O impacto que a presença ou não de um turbo pode acarretar no conforto térmico também não deve ser negligenciado, tendo em vista por exemplo tanto o espaço para que o calor seja dissipado do compartimento do motor quanto eventuais intrusões do mesmo no habitáculo como é bastante comum nas vans full-size americanas antigas em comparação a modelos de projeto europeu como o Fiat Ducato de 2ª geração, originalmente lançado em '93 embora só tenha chegado ao mercado brasileiro em '98.
Eventualmente a modularidade em uma mesma linha de motores de concepção original mais antiga, e que tenha recebido atualizações ao longo de um ciclo continuado de produção, também pode sugerir facilidade para que se substitua um mais antigo ao invés de fazer um procedimento mais complexo como uma retífica total. Cabe destacar o caso do motor Sofim 8140 que equipou originalmente o Fiat Ducato à época da chegada no mercado brasileiro numa versão de 2.5L naturalmente aspirada e com injeção indireta, e apesar do atual motor FCA F1A de 2.3L já incorporar o turbo, intercooler e injeção eletrônica do tipo common-rail ainda preserva muito do projeto inicial, facilitando a acomodação do motor mais atual no lugar do antigo. Naturalmente, de acordo com os níveis de controle de emissões em vigor em cada país e como uma atualização mecânica possa ser tratada sob o ponto de vista de um prolongamento da vida útil operacional em áreas com restrições ao tráfego de veículos com índices de emissões desatualizados, pode ser necessário integrar também outros sistemas cuja inclusão no modelo anterior se torne mais difícil dada a idade do projeto. A princípio, alterações como o uso de um filtro de material particulado (DPF) podem não parecer nada de outro mundo, mas outras como a instalação do tanque de AdBlue/ARLA-32/ARNOx-32 quando se torne necessário o sistema SCR já podem ser mais desafiadoras até durante a instalação de implementos necessários numa determinada aplicação que pode ser tanto recreacional quanto profissional. Também é importante considerar alguma interferência que variações na qualidade do combustível disponível fora da região onde o veículo opere com mais frequência possam causar no funcionamento de dispositivos de controle de emissões.

Pode ser apontada como uma desvantagem de motores modernos uma eventual dificuldade para obter alguma assistência técnica mais específica à medida que novas tecnologias vão sendo incorporadas às gerações mais recentes de motores Diesel, como por exemplo o 4N15 que equipa a atual geração do Mitsubishi Pajero Sport e foi o primeiro motor Diesel na categoria de pick-ups e SUVs médios a usar bloco de alumínio. De fato, a presença maciça da eletrônica requer alguns cuidados que pareciam não causar tanto transtorno caso viessem a ser negligenciados durante manutenções, e o crescente grau de complexidade tanto de componentes de sistemas de injeção quanto outros cada vez mais essenciais às condições operacionais modernas como o turbo cobram seu preço. No entanto, a idéia de que motores modernos venham a ser inerentemente mais problemáticos ou que um antigo seja sempre "à prova de burro" também deve ser tratada com muita cautela, até para evitar riscos à segurança dos mecânicos e do usuário final em decorrência de desleixos ao manusear componentes que podem ter algum grau de periculosidade independentemente da idade do projeto e/ou especificação final do motor.

Por mais que no ideário de uma parte considerável tanto do público generalista quanto de dieselheads persista a imagem de que motores mais rústicos como o 4M40 usado em algumas gerações antigas do Mitsubishi Pajero Full possam ser deixados aos cuidados de "qualquer mecânico de trator", ignorando tanto a importância dessa categoria profissional para a moderna agricultura de precisão quanto fatores históricos como o uso de motores de ignição por faísca em tratores muito antigos como o Ford 8N, é importante destacar que sistemas de injeção para qualquer motor Diesel operam a altas pressões, logo deve-se ter sempre muito cuidado ao manipular componentes que ainda possam conter algum vestígio de combustível pressurizado para evitar que possa ser injetado em alguma parte do corpo e envenenar o encarregado da manutenção, sendo altamente recomendável despressurizar as linhas de combustível de acordo com os procedimento que estejam previstos no plano de manutenção e manuais de serviço emitidos pelo fabricante do motor e/ou veículos e equipamentos. Enfim, por mais que seja um tópico sujeito a controvérsias, em alguns casos adaptar um motor Diesel moderno pode valer a pena.

Um comentário:

  1. Às vezes dá uma saudade da época dos motores mais simples que podiam ser consertados sem muita sofisticação no meio duma emergência, mas para quem não vá encontrar tanta dificuldade para acessar uma assistência técnica devidamente capacitada um motor moderno deve valer a pena. O problema é quererem usar da possibilidade de adaptar um motor mais novo para forçar uma obsolescência programada de motores mais antigos e parar de fornecer suporte técnico e peças.

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Nem sempre é viável manter as relações de marcha originais após converter um veículo para Diesel, em função dos regimes de rotação diferenciados. Portanto, uma alteração das relações de diferencial ou até a substituição do câmbio podem ser essenciais para manter um desempenho adequado a todas as condições de uso e a economia de combustível.

It's not always viable to retain the stock gear ratios after converting a vehicle to Diesel power, due to different revving patterns. Therefore, some differential ratio or even an entire transmission swap might eventually be essential to enjoy a suitable performance in all driving conditions and the fuel savings.

Mais informação sobre relações de marcha / more info about gear ratios
http://dzulnutz.blogspot.com/2016/03/relacao-de-marcha-refletindo-sobre.html